Inspetor D.Lucas

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Sou motociclista, sempre fui e não lembro o dia que não tenha andado de moto ou que não tenha pensado nela. Motocicleta é mais que um meio de transporte, é um prazer.

A realidade da motocicleta em nosso país

07 de Dezembro de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.com

Viajando pelo Brasil tenho vivido situações inusitadas com motocicletas. Posso opinar por diversos motivos e o mais importante deles é que vivo em cima de uma moto e sinto na pele os problemas do dia a dia de diversas regiões do país, já que trabalho com motocicletas na Polícia Rodoviária Federal (PRF), sou motociclista na vida civil, participo de moto clube, ministro palestras de segurança motociclística para deslocamento com segurança em grupo, sou escritor e publiquei o livro “Motos Na Estrada”, da editora Kiron.

Moro em Brasília, e nossa Capital Federal proporciona aos motociclistas pistas em excelente estado de conservação e o trânsito ainda é bom para a motocicleta. Claro que, em seu horário de pico, a situação fica complicada, mas, fora isso, a moto reina em Brasília.

Estive em São Paulo e, lá, as motocicletas e seus loucos motociclistas no dia a dia sempre colocam em risco a própria vida e a dos outros, priorizando as entregas, os compromissos e seus motoclubes com seus membros escudados, que enfeitam os finais de semana com suas possantes motos.

Em Minas Gerais, encontramos um trânsito confuso, mas, mesmo assim, como em todas as capitais, a exemplo de Goiânia, Vitória e nas cidades do sul, a moto está sob controle. Os motociclistas andam de capacetes, obedecem a sinalização e estão documentados, claro que toda a regra tem sua exceção, mas a exceção não é maior que a regra.

Entretanto, todas as vezes que trabalho e piloto no nordeste, encontro situações inusitadas. Situações que não ocorrem mais em outras regiões do país, como falta de habilitação para motos, andar sem capacete, motos sem emplacamento e pessoas pilotando sem a menor noção de trânsito, nem o básico do básico. E a verdade tem de ser dita: no norte nordeste do país impera o coronelismo até hoje e isso influencia até mesmo no emplacamento de uma “praga” chamada Trakker de 50cc. Ela consta no sistema nacional de trânsito, precisa ser emplacada e os municípios não emplacam, tão somente por problemas políticos e interesses de grupos que ganham com a venda de milhares de motos, que todos os dias matam nossa juventude e o mais curioso é que todos andam nestas motos, mulheres idosas, senhores com mais de setenta anos de idade, meninos, adolescentes para ir à escola. Enfim, todas as pessoas da sociedade estão se deslocando com estas máquinas de matar, que infelizmente a legislação brasileira não enquadra.

Essas “motinhas” não andam em Brasília, São Paulo e outras capitais brasileiras, somente são vendidas, sem nenhum controle, no norte/nordeste e falta fiscalização.

Infelizmente, nossa corporação não pode fiscalizar todo o norte e o nordeste do país. Este trabalho deveria ser realizado pelas PMs dos respectivos estados, com motocicletas de grande cilindradas para impor autoridade. Porém, o que acontece é que trabalham com motos de, no máximo, 250cc, sucateadas e, quando a fiscalização é realizada pelos PMs, normalmente os mesmos veículos são liberados por “ordem superior”. De quem? Não posso precisar, mas falta autoridade e vontade de resolver este problema que mata todos os dias.

Durante trabalhos em Mossoró no Rio Grande do Norte, onde as Trakks estão dominando, ocorreu um acidente com uma desta “motinhas”. Uma jovem de 21 anos ficou com o crânio estraçalhado porque um caminhão fechou a moto da moça. Ela não conseguiu sair da situação por total falta de conhecimento do equipamento que pilotava, caiu debaixo das rodas do caminhão e, como sempre, o motorista nem viu a moto. Em outra fiscalização, um senhor de 74 anos pilotava uma e disse não saber ler e nem escrever, mas estava em uma rodovia federal com caminhões e levando na garupa sua senhora. Imagina a situação, como fiscalizar? Havia uma motocicleta de 50cc, que constava no sistema, mas não havia sido feito o primeiro emplacamento, infelizmente nada podia ser feito.

Sei que os nordestinos vão criticar, mas eles vivem uma situação que não é a que vivemos no restante do país. Eles ainda acham que usar capacete é errado e, isso, presenciei em praticamente todas as cidades do norte/nordeste. É a realidade e não pode mais ser mascarada. Alguma coisa tem de ser feita imediatamente.

Conversando com o motorista do caminhão que transportava as muitas motos apreendidas na nossa na Br 405, durante a Operação Duas Rodas, ele disse que é normal um político mandar proibir isso ou aquilo, quem pode e onde podem usar capacete. Isso é um absurdo. Este tempo do coronelismo tem de acabar, não podemos aceitar que isso ocorra no século 21 e, podem ter certeza, isso ocorre.

Citei a marca da moto “xing ling” Traxx, mas poderiam ser vários nomes e porque acho que a segurança pública novamente está em xeque. Não podemos aceitar que as motos não sejam emplacadas porque o Detran local, que detêm o poder de emplacar ou não, decidiu que esta marca ou aquela pode ou não ser emplacada.

A polícia militar de todos os estados do norte e nordeste precisa de treinamento especializado com motos e de ter um equipamento com cilindradas mais potentes, para impor respeito e acabar com estes problemas que ocorrem na região e que tendem a aumentar.

Um amigo de João Pessoa contestou e disse que isso ocorre em todo o país. Posso adiantar que não ocorre. O povo dessa região acostumou com o errado. É a famosa “anomia”, que é a falta da segurança pública no local e a população passa a achar o errado normal. Quando isso ocorre, o incorreto vira certo e não podemos aceitar que motociclistas pilotem sem capacete, sem habilitação e que pais presenteiem com motos seus filhos adolescentes e, com esses presentes, esses mesmos jovens acabem vindo a óbito. Um problema social que tem de ser combatido e somente com responsabilidade social e educação ele será resolvido. O norte/nordeste precisa ser respeitado pelos políticos, pelos seus representantes e o povo tem de ser informado que, para pilotar qualquer moto, tem de ser habilitado e conhecer o CTB - Código de Trânsito Brasileiro.

Realizamos nosso trabalho e esperamos que a Polícia Militar de cada Estado assuma o papel que lhe cabe, fiscalizar e fazer a população entender que moto não é para ser usada sem lei, esta mesma lei tem de ser respeitada. O povo precisa ser respeitado. O motociclista tem de ser valorizado.