Diário de Bordo: Os Aventureiros ao lado de um vulcão ativo

30 de Novembro de -0001

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Estradas de cascalho margeadas por enormes precipícios, polícia alfandegária, vulcões e muita aventura são alguns dos causos vividos pelo motociclista Sinomar Tavares e sua companheira de vida e viagem, Edivânia Marques, nessa jornada pela patagônia chilena. Depois de se aposentar, aos 57 anos, ele comprou uma Honda Shadow 750cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca.

Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um relato sobre a aventura cheia de adrenalina do casal:
( A crônica é narrada pela Edivânia que será a protagonista no livro. VD significa Velho Doido que sou eu.)

No episódio anterior, contei como foi nossa aproximação com o motociclista finlandês chamado Steen. Agora, juntamente com ele, viramos à esquerda na Ruta 7, rumo ao norte, e entramos no Parque Nacional Queulat. Como em todo parque chileno, os órgãos ambientais não permitem grandes intervenções nas estradas e, por isso, são invariavelmente ruins. Em alguns trechos, passava um carro por vez e diversos cursos d’água cruzavam a pista livremente, onde era difícil escolher um local para a moto não atolar. 

Chuvas repentinas transformavam o barro já existente em sabão, fazendo a moto dançar para ambos os lados. Apesar dos cuidados do piloto, caímos duas vezes e, em ambas, tivemos que levantar a moto atolando no barro e sob a chuva. 

A impressão de uma pessoa em êxtase, por sofrimento ou por contemplação, é comprometida. Assim, minhas mensurações de tempo e distância podem estar desajustadas, mas tenho a impressão que rodamos uns 200 quilômetros dentro do parque. 

Naquele percurso, a Cordilheira dos Andes se abria e formava um vale esplendorosamente verde. A montanha à nossa esquerda segurava as interferências do pacífico e a da direita, os efeitos do deserto da Patagônia. A vegetação começava raquítica no cume e se fortalecia gradativamente até invadir densamente ambos os lados da estrada. 

A paisagem e o clima eram perfeitos; um paraíso para a fauna. Por essa razão, nos últimos quilômetros do parque, aumentou consideravelmente a quantidade de veículos traçados, carregados de suprimentos e de turistas, que montavam tripés para fotografar e filmar. Alguns veículos serviam de apoio a grupos que optaram fazer o percurso a pé, para melhor curtir a beleza das montanhas, da flora e da fauna. 

Ainda dentro do parque, fomos alcançados por um casal de japoneses que havia saído de seu país há 18 meses, cruzado a Europa, contornado a África e agora estava cruzando as Américas, montando a mesma moto. Dado a fluência no idioma inglês do Steen, os japoneses passaram o restante do dia e a noite conosco. Se antes era o grandalhão que determinava o local de dormir, naquele dia foram os japoneses. 

Aproximava-se a noite quando passamos por uma vila e, por nós, dormiríamos nela, porque não daria tempo de chegar à próxima cidade com dia claro. Como éramos coadjuvantes, seguimos o grupo de volta à estrada. Depois de uma hora de viagem, quase escuro, os orientais entraram numa clareira no meio da floresta e os seguimos até as proximidades de um riacho, quando afirmaram em inglês e em espanhol que acamparíamos ali.

Os japoneses, assim como o finlandês, eram bem práticos. Usavam os baús laterais como bancos, a mala traseira como mesa e, com uma lâmpada plugada na moto, providenciaram luz para o ambiente. Ficamos impressionados com a rapidez com que prepararam a sopa antes de dormir.

Acordamos com a algazarra dos animais, pegamos a estrada antes das 6 horas e, às 10 horas, o grupo se desfez. Os japoneses seguiram na frente, porque andavam bem mais rápido que nós. O finlandês pegou outro caminho, e nós seguimos para o Norte. 

Daquela noite em diante, diminuiu consideravelmente a preocupação que nos acometia quando começava a escurecer. Com nossos companheiros de estrada, aprendemos que qualquer local que tivesse água para nos lavar, serviria também para dormir. 

Por volta das 15 horas de uma terça-feira, VD parou numa pequena encosta e ficou olhando para o horizonte sem dizer nada. Na realidade, ele observava a pequena cidade que se encontrava a certa distância. Para mim, tratava-se de uma cidade normal e entretive-me em ajeitar as coisas na moto, fazer um xixi e explorar as imediações. Tive que ser alertada para perceber a catástrofe que estava à nossa frente.

Todas as casas estavam cobertas com pó de coloração cinza e, do outro lado, acerca de 10 quilômetros, encontrava-se o responsável por aquilo tudo: um imponente vulcão ainda fumegante. Senti uma pequena pontada no peito, não sei se por pena dos moradores ou por medo de ser soterrada pela lava vermelha, como nos filmes. 

Lampejos de um filme de guerra varreram minha mente. Senti-me entrando num set de filmagem de uma película sobre a segunda guerra mundial, como se fôssemos as primeiras pessoas a transitar por uma cidade recém-bombardeada. 

Na avenida principal, por onde seguimos, havia apenas poeira fina. Porém, nas vielas laterais, as marcas da tragédia eram enormes. As ruas estavam cobertas por uma camada de 30 cm de espessura e, rente às paredes das casas, chegava a um metro de altura. Nos lotes vagos, havia montes de resíduos, aparentemente retirados das ruas e dos quintais. Alguns carros encontravam-se apenas com os tetos descobertos. 

Cruzamos toda a cidade sem ver um único morador. A angústia me bateu forte e algumas perguntas me ocorriam incessantemente: quantas pessoas teriam morrido? Quantas teriam se queimado? Quanto desespero tiveram quando abandonaram suas casas e  a cidade? 

Depois de chegar à avenida beira mar, enxergamos um veículo parado às margens de uma instalação semelhante a um porto e, para lá, seguimos, visando nos inteirar do que teria acontecido com a população. 

A impressão que tive foi a de que o estrago era recente. Contudo, conforme soubemos, a erupção havia acontecido dez meses antes, exatamente no dia 2 de maio de 2008. O vulcão Chaitén, de 1.122 metros de altura e três quilômetros de diâmetro, cuspira lavas a 960 metros que formou uma coluna de cinzas que alcançou 30 quilômetros de altura. O céu ficou encoberto, interrompendo, inclusive, muitas rotas aéreas no Chile e na Argentina. Depois da tragédia, cinco mil pessoas se viram obrigadas a empreender doloroso êxodo por terra e mar para escapar da erupção. Todo o comércio fechou e o município transferiu sua administração para a cidade de Puerto Montt, a 200 km quilômetros dali. 

Angustiou-me mais um pouco quando nos disseram que o governo decidira acabar com a cidade e, com esse objetivo, suspendeu o fornecimento de água, energia e telefone. Apesar dessas restrições alguns moradores insistiam em ficar. Um deles era o dono do posto de combustível que, com um motor a gasolina, conseguia gerar energia para o restaurante e a agência de viagens que vendia passagens náuticas para a Ilha de Chiloé. Antes da tragédia, um enorme navio fazia uma viagem diariamente entre a ilha e aquela cidade, trazendo grande quantidade de carros, caminhões e pessoas. Depois da erupção, o cargueiro continuava fazendo duas viagens por semana, pois era o único ponto de passagem da ilha para o Sul do país. 

A balsa só sairia no dia seguinte e, apesar da minha contrariedade, teríamos que dormir na cidade. Alegrei-me um pouco quando um dos ocupantes do veículo informou que havia um pequeno clube nas imediações onde as cinzas não alcançaram. 

Chegando ao clube, o funcionário estava fechando as portas, mas, com nossa insistência, deixou-nos acampar e cordialmente nos mostrou as instalações; informou-nos tratar-se de um clube com fonte de água termal, que nascia naturalmente quente e escorria permanentemente através da piscina, na qual poderíamos imergir. 

Sempre achei relaxante permanecer imersa em água quente, mas não naquele lugar de onde víamos o topete fumegante do vulcão. Meu senso de sobrevivência me cobrava atenção e minha intuição alertava que, se aquela água vinha quente das entranhas da terra, era porque havia infiltração até o vulcão e, por isso, a qualquer momento, tudo poderia explodir. Alternando ações como virar as costas para a montanha ou abraçar VD, nada me entretinha; não conseguia me relaxar. VD, ao contrário curtia a água morna como se fosse um marajá rodeado de odaliscas. 

A partida da balsa estava prevista para 10 horas, mas um caminhão carreta engastalhou ao subir na embarcação, causando enorme atraso. Quando desobstruíram a entrada, outro bi-trem teve dificuldade para embarcar. Quando zarpamos, passava das 13 horas e a previsão de chegada ao outro lado, na cidade de Quellón, na Ilha de Chiloé, ocorreria por volta das 19 horas. Porém, por causa da maré baixa, só foi possível aportar às 2 horas da madrugada.

VD ocupou o tempo de espera para treinar seu inglês com o grupo de 42 alemães que viajava no referido bi-trem. O veículo fora adaptado da seguinte forma: o veículo principal funcionava como um ônibus, onde as pessoas viajavam sentadas. Na parte articulada do caminhão, foram instaladas diversas camas como se fossem gavetas fúnebres ou casulos. 

Aproveitei a estada no navio para consolidar os dados da viagem até aquele momento. Estávamos há 38 dias na estrada, 11.134 quilômetros rodados, dos quais 2.100 por estradas de rípio (cascalho). 

Sinomar Godois Tavares, 59 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
 http://www.facebook.com/sinomarg

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Fotos: Divulgação