Cris Rissanen

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Cris é nossa colunista internacional, escreve direto da Finlândia, trazendo para nós as notícias, novidades e curiosidades do mundo motociclístico no exterior.

E o sonho não para... 78 anos e um milhão de quilômetros rodados

22 de de 2012

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ENCONTRODEMOTOS.com

Essas são as palavras de Guillermo Godoy, argentino, naturalizado brasileiro, apaixonado pelo motociclismo de aventura: "já tive filhos, escrevi livros, plantei árvores. Conforme a tradição popular, sou uma pessoa realizada”. 

 

Guillermo atualmente reside em Florianópolis, mas se considera cidadão do mundo. Ele se descreve como um albatroz solitário, como alguém que voa nas asas indomáveis de sua moto em busca de seus sonhos, levando seu incontestável lema "querer é poder".
 

É com essa determinação e disposição que, aos 78 anos de idade, sendo 37 de motociclismo, Guillermo acumulou um milhão de quilômetros sobre duas rodas, percorrendo os cinco continentes, incluindo os Polos Sul e Norte. Ele enfatiza que “o mundo estará sempre ao alcance daqueles que tiverem coragem de sonhar e correr o risco de viver esses sonhos”.


Como tudo começou:


Desde pequeno, ele tinha adoração por motos grandes. Seu coração palpitava quando as via passar. Na época, eram máquinas que hoje nem existem mais: Norton, Triumph, AJS, BSA, Indian, Makcles, Magnat Debon, Gilera, e outras.
 

Mas teve que cumprir com algumas prioridades, doutorado, trabalho, família e filhos, antes de realizar o sonho de ter uma dessas. Um belo dia ele acordou e decidiu, é hoje!
 

Correu para concessionária e o vendedor ofereceu-lhe uma 125cc, pois ele , mediante nunca havia pilotado antes, o que deixou Guillermo extremamente decepcionado, exclamando em seguida, “eu quero a mais possante que tiver”. E, assim, saiu com sua CB 400 II, a moto de maior cilindrada na época no Brasil, toda carenada com rádio e toca fitas. “Nem consegui dormir aquela noite, de tanta emoção”, confessa.
 

Em dois dias, Guillermo partiu para Argentina em visita aos pais. “Foi minha primeira viagem longa, foram os 4.800km que marcaram minha vida para sempre”.
 

Motociclista, médico e escritor, Guillermo se formou em medicina no ano de 1957, na Universidade Nacional de Buenos Aires. Foi lá que cursou a matéria de farmacologia com Ernesto Guevara Lynch, mais conhecido como Che Guevara. E o que eles tinham em comum. além do interesse pela medicina, era a Paixão pelo motociclismo
 

Quando pergunto mais sobre Ernesto Guevara, Guillermo conta como se conheceram. Sendo Ernesto cinco anos mais velho, já estava perto de se formar e fazia faculdade em La Plata. Mas farmacologia era a matéria que o infernizava, a qual o professor não gostava de Ernesto e já havia o reprovado 3 vezes.

Cansado e deprimido, Guevara resolveu cursar a matéria em Buenos Aires, o que coincidiu ser no mesmo ano em que Guillermo. E como não podia ser diferente, a paixão pelas motos os aproximou. Eles conversavam sobre realizar longas viagens de moto, coisa que Guevara fez logo em que se formou. Anos depois, o mundo o conheceria por Che. “Muitos o admiraram e se espelharam nele, outros o odiaram, eu já o admirava muito antes de se tornar o Che”, relembra Godoy. 


“A diferença entre a época em que comecei a viajar de moto e os dias atuais é astronômica, gritante. Na minha época, era necessário ter um misto de loucura, coragem e muita determinação para fazer uma longa viagem. Não existiam roupas especiais para motociclistas, nenhum tipo de acessórios modernos. Celular ou GPS, nem pensar! As estradas eram horríveis e não tínhamos nenhuma infraestrutura ao longo delas”, relata ele.

Seu lado aventureiro o ajudou muito em sua profissão. Em 1968, Guillermo atravessou a lamacenta transamazônica em meio a selva até Manaus para prestar serviços ao Brasil, pesquisando sobre as doenças que matavam os índios. “Muitas vezes, trabalhei com febre, atacado pela malária”, conta. Guillermo foi condecorado pela Organização Mundial de Saúde.
 

As histórias não terminam por aqui, ainda tem muita coisa para ser contada. Entretanto é muita coisa para um dia só, amanhã eu continuo.
 

Cris Rissanen.